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quinta-feira, 25 de julho de 2013

Protesto-Poesia: Eu não preciso de Cadiveu

Por: Silmara Silva [ONIJÁ]




Sou poesia, sou rap
Sou auto estima, sou dreads
Sou cachos, sou Black
Não me encaixo em suas teses

Não estou preso, sou samba
Eu sou crespo, sou trança
Seja nagô, seja jamaicana
Veja o teor da raiz africana

Sou eu mesma, sou reggae
Vou de cabeça, renegue
Os ferros que ferram e ferem
Seus belos se armam, se erguem

Não recuo, sou jazz
Destruo o porão e o convés
Sou pantera, sou Angela Davis
Eu sou ela, sou eu, sou vocês

Sou encanto, sou blues
Eu sou canto que flui
Vem qualquer chapinha que esquenta
Vou mulher, menina, sou quem arrebenta

Fios soltos, fio livres
Dos engodos, dos alises
Antes queimados pela química
Avante  couros coroados pela linda carapinha

Suja propaganda não engulo
Sua bugiganga eu não uso
Digo, repito, registro no papel
Eu não preciso de Cadiveu


Reafirmando neste 25 de julho: Eu não preciso de Cadiveu



Neste 25 de julho, Dia da Mulher Afro-Latino-Americana e Afro-Caribenha, não podemos esquecer da campanha publicitária preconceituosa da Cadiveu Brasil e outros atos pejorativos, que apresentam o cabelo crespo como "cabelo ruim", "bombril" e tantos absurdos.

No início deste ano, nos deparamos com a propaganda da empresa Cadiveu em que divulgava fotos de pessoas com perucas black power e uma placa com a seguinte frase: "Eu preciso de Cadiveu".

Fotos da campanha publicitária da Cadiveu Brasil

 A empresa definiu o ato como "uma brincadeira"
Na contra-mão da naturalização do preconceito, foram muitos os protestos nas redes sociais. Indico a página oficial da campanha "EU NÃO PRECISO DE CADIVEU". 



Foto da campanha EU NÃO PRECISO DE CADIVEU

Segue também a nota de repúdio publicada por vários coletivos em janeiro deste ano.

NOTA DE REPÚDIO AO PRECONCEITO DA CADIVEU

Não é fenômeno atual o fato de que o fenótipo de pessoas negras é adjetivado como 'ruim'; conforme ensaio de G.K. Hunter ("Othello and color prejudice", 1978, p.41), na literatura religiosa, nos romances medievais e na tradição pictórica, todos os demônios, pagãos, maus espíritos, mouros e turcos eram negros.
Dito fenômeno se acentuou por ocasião da escravidão de negros africanos; conforme ensinou Octave Mannoni, em "Próspero e Caliban", as diferenças entre os seres humanos foi usada pelo colonizador como um instrumento de dominação, pois ele, além de não perceber o mundo do colonizado como um mundo a ser respeitado, ainda buscava satisfação psicológica na imposição de seus próprios valores e tradições como 'algo superior'.
Essa dominação se deu, no caso dos escravos africanos, com uma total repressão a tudo que se referisse ao povo africano: seus valores, deuses, tradições e fenótipo. A palavra diáspora refere-se a um trauma coletivo de um povo que, banido de sua terra e vivendo em um lugar inóspito, sente-se como que desenraizado de sua cultura e de seu lar. Esse trauma leva muitas pessoas negras a, buscando a aceitação do dominador, negar sua própria afrodescendência ao buscar a adequação de seus corpos (e cabelos) aos padrões eurocêntricos impostos.
Mesmo após passados anos da abolição da escravatura, essa desvalorização da pessoa negra, de sua cultura e valores se perpetua através de outros meios, como a demonização das religiões de matriz africana, a qualificação pejorativa do fenótipo negro e o tratamento de pessoas negras como que inferiores, com o uso de linguajar infantil que reflete exatamente esse sentimento de superioridade de quem o adota.
Recentemente a marca de produtos cosméticos 'Cadiveu Brasil' publicou em sua página do Facebook um álbum onde foi retratada uma campanha que perpetuava o racismo, por meio de qualificação pejorativa do cabelo de pessoas negras. Dito álbum mostrava pessoas colocando uma peruca que lembrava o cabelo 'black' e segurando uma placa com os dizeres 'eu preciso de cadiveu' (numa clara alusão à idéia de que o cabelo crespo, para se tornar apresentável/aceitável, precisava de um cosmético).
O coletivo 'Mulheres Black Power' foi o primeiro a se manifestar contrariamente a esse preconceito velado, disfarçado de 'padrões de beleza' eurocêntricos e racistas; e vários outros coletivos e usuários da rede manifestaram repúdio à dita conduta.
No lugar de apresentar uma retratação digna, a referida marca respondeu no Facebook dizendo que era 'apenas uma brincadeira', 'que a campanha tinha sido um grande sucesso', 'que tinham uma modelo negra que assumia o cabelo black', entre outras coisas.
Referida resposta nem de longe constitui a postura que se espera de uma empresa séria que diz respeitar a diversidade e suas consumidores'; reflete, na verdade, uma visão alienada de que sob a desculpa do 'humor' tudo pode ser feito, que ter uma modelo negra os autorizaria a vilipendiar o fenótipo negro, que um grande sucesso numa campanha constituiria motivo suficiente para a manutenção desta campanha, independentemente de seu conteúdo.
Seguiram-se novas manifestações de usuários e nova manifestação da marca, que desta vez optou por usar um linguajar infantilizado, apelo à emoção e reiteração do racismo com a alusão à 'raça pura' e a proposta de fazer um vídeo com 'meninas que valorizem os cachos'.
Entendemos que um simples vídeo sem que antes dele venha uma retratação pública não resolverá a crise estabelecida. É preciso que a marca tome outras medidas para demonstrar seu compromisso com o combate ao racismo, pois esse problema não é algo individual, mas coletivo, que infecta todos os padrões sociais.
Enquanto o racismo declarado constitui crime, o velado (em forma de padrões de beleza e humor, por exemplo) continua firme e forte, afetando crianças, jovens e adultos que são marginalizados e ridicularizados. Marcas de produtos e pessoas podem perpetuar o racismo, ainda que de forma inconsciente, motivo pelo qual é preciso conscientizar e educar toda a sociedade contra esses tipos de racismo como parte do combate ao problema. Fazer isso é decência básica humana.
Por este motivo, os coletivos que assinam a presente, resolveram apresentar esta nota de repúdio e uma proposta de retratação eficaz:
a) Indisponibilizar o álbum com a campanha que originou a crise (o que foi feito espontaneamente pela Cadiveu),
b) Apresentar texto onde se reconheça que qualificar ou insinuar que o cabelo crespo é algo ruim e precisa de um produto para ser melhorado constitui racismo velado e se desculpar pela perpetuação do racismo, ainda que essa perpetuação não tenha sido feita de forma consciente.
c) Desculpar-se por ter usado, em suas respostas, palavras como 'raça pura', o apelo à emoção e a linguagem infantilizada (que revela uma visão de superioridade em relação às pessoas que reclamaram).
d) Comprometer-se na luta contra o racismo, fazendo campanha nos moldes da adotada pela DKT com o caso dos preservativos 'Prudence'.

Assinam o presente os coletivos:
10 - 'O preconceito onde voce não vê' - link:https://www.facebook.com/OPreconceitoQueVoceNaoVe?ref=ts&fref=ts
12 - 'Cartazes e Tirinhas GLBTs'' - link: https://www.facebook.com/CartazesLgbt?ref=ts&fref=ts
16 - 'Blogagem Coletiva Mulher Negra' - link:https://www.facebook.com/blogagemcoletivamulhernegra?ref=ts&fref=ts
20 - Liga Humanista Secular - LiHS - link: https://www.facebook.com/lihsbrasil?ref=ts&fref=ts
21 - Slut Shaming Detected - link: http://slutshamingdetected.tumblr.com/

Se o racismo está enraizado, arranquemos a praga com raiz e tudo e a substituamos pela valorização das raízes negras. Meu cabelo é bom; ruim é o seu preconceito.